24 de junho de 2010

Moeda social: o dinheiro da prosperidade

Por Nara Bianconi - AsBoasNovas

Há dez anos, na favela Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, onde moram cerca de 32 mil pessoas que ganham em média 2 salários mínimos por mês, surgia a primeira moeda social brasileira: a Palmas.


A iniciativa é fruto do também pioneiro Banco Palmas, o primeiro banco comunitário do país, que abriu suas portas com um capital de R$ 6.500 e a intenção de conceder microcrédito para o financiamento de pequenos negócios na comunidade e estimular o consumo dentro da mesma. “Percebemos que as pessoas daquela região não eram necessariamente pobres, apenas gastavam seu dinheiro em estabelecimentos perto de seus empregos e longe dali”, explica João Joaquim de Melo Neto, coordenador do banco. “Se comprassem nos comércios locais, a comunidade prosperaria como um todo, porque teria dinheiro rodando internamente”, complementa.

O funcionamento da moeda social é bem simples: ela vale o mesmo que o Real e deve ser trocado no banco comunitário da região sem qualquer cobrança de taxa de câmbio. Os comerciantes locais costumam dar desconto para quem paga com a moeda corrente da comunidade, estimulando dessa forma, as compras. Os bancos comunitários, por sua vez, prestam contas ao Banco Central, informando o número de emissão da moeda social que está em circulação.

Para Joaquim, a moeda social é sinônimo de propriedade da comunidade e deve ser controlada pela mesma. “Como as pessoas que usam o dinheiro se conhecem, conseguem manter um controle social com facilidade”, diz Melo Neto. Nesse modelo econômico, a própria comunidade é beneficiada com o lucro gerado pelo banco, já que o excedente é revertido em incentivo a negócios locais em forma de microcrédito, diferentemente do que acontece em grandes bancos, onde o dinheiro dos clientes é usado para transações financeiras. “Estamos falando de uma democracia econômica. O banco comunitário serve apenas para gerar riqueza local, sem prestar qualquer serviço ao mercado especulativo”, afirma.

Existem hoje, mais de 45 moedas paralelas em circulação no Brasil, o que mostra que o exemplo da Palma deu muito certo. Entretanto, ao contrário do que podem pensar alguns, a ideia não é substituir o Real, até porque, para se colocar uma nova moeda em circulação, é necessário ter o valor correspondente à elas em reais (lastro da moeda oficial do país). Para Paul Singer, secretário nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e emprego, as “moedas sociais são extremamente significativas, já que auxiliam as comunidades sem que essas precisem depender de programas de assistência social”.

A aceitação e eficiência do modelo econômico fez com que os bancos comunitários desenvolvessem produtos como cartões de crédito e empréstimos (muitas vezes sem juros) para compra de móveis, eletrodomésticos e roupas, desde que utilizados na comunidade. “Dessa forma criamos mercado para produtos fabricados pelos próprios moradores, incentivando o desenvolvimento local”, afirma Melo Neto.
 
Feiras de Trocas Solidárias 

Além do uso de moedas sociais, as feiras de troca, que se popularizaram na Argentina depois da crise que assolou o país no início da década passada, estão ganhando cada vez mais adeptos por aqui, estimulando o desenvolvimento de microprodutores e sanando as deficiências econômicas de muitas comunidades.

Em maio deste ano, por exemplo, aconteceu a 39ª Edição da Feira de Trocas do Centro, em São Paulo, que reuniu cerca de 400 pessoas que levaram mercadorias que produzem para trocar entre si. O evento é organizado pelo Banco de Trocas Solidárias do Centro de São Paulo e propõe um “espaço para que as pessoas se desenvolvam como sujeitos de mudança na busca por alternativa para o desemprego e concentração de renda, pois cooperam entre si para gerar benefícios para todos”, explica Felipe Bannitz, consultor técnico da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Fundação Getúlio Vargas (ITCP-FVG).

O sistema financeiro nacional e o combate à desigualdade sócio-econômica ganham novos aliados com o surgimento dos bancos comunitários, da moeda social e outras alternativas que vem demonstrando eficiência econômica e se firmando como ferramentas eficientes na busca pelo equilíbrio social em todo o país.

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