12 de março de 2010

Políticas públicas do clima

Nos últimos anos, as mudanças climáticas foram catapultadas para a primeira página dos jornais e para as Assembléias Legislativas de inúmeros Estados brasileiros. O país vem assistindo ao surgimento de legislações estaduais específicas sobre  tema.  

Atualmente, além da Política Nacional das Mudanças Climáticas, sancionada no ano passado pelo Governo Federal, quatro Estados brasileiros (Amazonas, Goiás, Santa Catarina e São Paulo) já possuem uma lei específica sobre o tema e outros seis estão elaborando suas políticas (Amapá, Mato Grosso, Paraná, Pernambuco, Bahia e Espírito Santo).

Qual a importância disso num país onde "leis tem que pegar"? Leis como estas instituem legalmente os mecanismos e instrumentos necessários para os governos estaduais desenvolvam políticas públicas e projetos para mitigar e promover adaptação às mudanças privadas. 

Estou participando deste processo no Espírito Santo. Aqui, a política está sendo elaborada pelo Fórum Capixaba de Mudanças Climáticas, instância da qual participam representantes da sociedade civil e do Governo Estadual.

Se o seu Estado ainda não está se movimentando, escolham bem seu candidato a Governador nas próximas eleições. 

Para aqueles interessados em ler as políticas existentes, eu reuni todas as que eu possuo e coloquei no neste link.


Muito mais do que mudanças climáticas

Roberto Strumpf, GVces
O ponto principal é que o engajamento de pessoas e corporações em questões socioambientais não pode se sustentar apenas nas mudanças climáticas. E me parece que a exposição exagerada desta ameaça global acabou por ofuscar uma série de questões importantíssimas que incorporam a sustentabilidade.
 
Considero esta abordagem perigosa porque, se por um lado o que move a economia do baixo carbono não é uma certeza absoluta, e sim o principio da precaução tardiamente aplicado – já que não temos um planeta B…, por outro as mudanças propostas por esta economia são, sem exceção e sem sombra de dúvida, absolutamente necessárias para nossa sociedade.

As três principais propostas sendo discutidas hoje em âmbito global para a mitigação das mudanças climáticas podem ser resumidas em eficiência energética, energias renováveis e redução do desmatamento. Esta primeira é facilmente defendida por argumentos não climáticos, isso porque investir em eficiência energética significa redução de custos e diferenciação dos produtos de uma empresa, tornando-a mais competitiva no médio e longo prazo. Este é um bom motivo para que, no mundo todo, empresas líderes em seus setores realizem inventários de emissões de gases de efeito estufa (GEE), processo que aponta os caminhos para uma boa gestão energética e para a inovação.

A diversificação da matriz energética através do investimento em renováveis é questão de segurança nacional, pois evita que um país dependa tão fortemente de um recurso que, além de finito, é controlado por um grupo de poucos países como no caso do petróleo. Além disso, a implementação conjunta destas duas primeiras propostas reduz a possibilidade de conflitos advindos de disputas por esses recursos finitos e tem ainda um impacto enorme na saúde de moradores de grandes centros urbanos, que sofrem com a poluição do ar causado pelo excesso de meios de transporte ineficientes movidos a combustíveis fosseis.


Por fim, o reconhecimento do valor dos serviços ambientais fornecidos por uma floresta é um argumento fortíssimo contra o desmatamento ilegal que, por si só, deveria ser o bastante para evitar esta pratica há muito tempo. Alem dos serviços mais óbvios como o fornecimento de alimentos, medicamentos, cosméticos, fibras e madeira que uma floresta tropical abriga, temos ainda a questão hídrica que no Brasil é absolutamente estratégica. A umidade exportada pela Amazônia para outras regiões é da ordem de 1,7 trilhões de metros cúbicos de vapor d’água, segundo estimativa do professor Eneas Salatti da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), ou seja, sem a Amazônia nossa produção de grãos e carne e nossa matriz elétrica poderiam estar em risco por falta de chuvas no Centro Oeste, Sul e Sudeste,do país. Estes são apenas alguns de muitos argumentos para provar que investimentos maciços em eficiência energética, energias renováveis e combate ao desflorestamento são necessários e estratégicos para todos os setores da sociedade, independente de termos ou não alguma responsabilidade sobre as mudanças climáticas. Uma abordagem monotemática é frágil e coloca em risco todo o esforço e recursos alocados nas últimas décadas para viabilizar um desenvolvimento mais sustentável.

Já somos quase 7 bilhões de pessoas mas a Terra permanece a mesma. Há mais de 1 bilhão de chineses querendo um padrão de vida melhor e é justo que o façam. . Dependemos demais de recursos não renováveis e, devido a uma péssima gestão de nossas riquezas naturais, estamos acabando com recursos teoricamente abundantes. Questionar verdades tidas como absolutas é saudável, sempre moveu a ciência, mas colocar uma dúvida como desculpa para a inação é um tiro no pé quando as consequências são tão desastrosas para o meio ambiente e o homem.

Os resultados do atual modelo de desenvolvimento insustentável não são previsões futuras, nós a sentimos e pagamos caro por isso todos os dias, isso tem de ficar claro. Portanto, vamos deixar a discussão sobre nossa responsabilidade perante as mudanças climáticas para a ciência e fazer nossa parte porque, caso contrário, quando esta discussão terminar será tarde para comemorarmos.


11 de março de 2010

Tendências para consumo consciente no Brasil

No Brasil, 
  • 21% dos cidadãos estão informados sobre as condutas socioambientais de empresas brasileiras;
  • O fator "comportamento sustentável de fabricantes de produtos" corresponde a um peso de 9% entre os atributos selecionados pelo consumidor na hora de comprar um produto;
  • Um em cada 3 brasileiros realiza compras motivadas com base na informação sobre o comportamento socioambiental das empresas.
Estes dados são do dossiê Tendências Para o Consumo Consciente, lançado recentemente, que apresenta um estudo aprofundado sobre o consumo consciente e tendências de mercado voltados à sustentabilidade.

9 de março de 2010

A economia da insensatez

Não é raro ouvir de pessoa simples, quando questionada no comércio para a elaboração de um cadastro de loja: "Não moço, eu não trabalho. Só o meu marido". Essa mulher - imaginemos - levanta-se quando ainda é noite, prepara o café para a família e a comida que o marido e os filhos levarão, para o trabalho e a escola, depois dá banho nos filhos pequenos, lava roupa, passa roupa, limpa a casa, cuida das crianças, vai à feira, cozinha; enfim, faz uma infinidade de tarefas que, se remuneradas, garantiriam um bom salário mensal. Afinal, compute-se aí, entre outros serviços: cozinheira, lavadeira, arrumadeira, passadeira, serviços gerais, babá, educadora etc. Mas, para a economia, isso tudo é ficção, é miragem, não existe, não é computado no PIB. 

A economia se impõe no mundo com suas leis pouco transparentes, embora pretensamente científicas e corretas. Parece que o jogo funciona enquanto os ganhadores mantêm um acordo entre si e os perdedores acreditam que não melhoram de vida porque são ignorantes. Pobre conhece muito bem o desemprego, mas nunca sabe se ele é estrutural, friccional, keynesiano ou conjuntural. Pode estar aí a explicação porque ganha tão mal. Se soubesse de âncoras cambiais, taxas de câmbio flutuante e inflação inercial, certamente teria pouco a se queixar.

Há muito que os pobres desconfiam que há algo muito errado no mundo da economia. A começar por trocas injustas. Como explicar que cidadãos começam a trabalhar jovens na construção civil; erguem centenas de prédios luxuosos e quando se aposentam, já debilitados pelo peso de tanto cimento, ferro e tijolos, nunca ganharam o suficiente para uma moradia digna. Mal conseguem se equilibrar sobre barracos de madeira pendurados no morro, permanentemente expostos ao risco de desabamento.

A economia institui valores. Mas quem disse que o operário que ergue um prédio precisa ganhar muito, muito menos do que um arquiteto ou engenheiro que sabe projetá-lo ou calculá-lo? Tudo são convenções e poderiam ser diferentes do que são. Quanto tempo leva para uma pessoa que é explorada tomar consciência da sua exploração? Quanto tempo leva para uma pessoa que é beneficiada pelo sistema político e econômico tomar consciência da injustiça social? E, ao invés de exigir sempre mais vantagens, lutar para desfazê-las e reparti-las?

Nunca nos vemos como parte do problema. A miséria que se produz no planeta, nunca tem o nosso aval. Limitamo-nos a trabalhar, a ganhar -não raro- um bom dinheiro, e a olhar com espanto, como se produz tanta miséria. Quando os miseráveis querem o nosso fígado, além das nossas carteiras e relógios, damos a isso o nome de violência. A poucos ocorre chamar pelo mesmo nome o que se passa nos arredores da cidade que habitamos.

Com o tempo nos acostumamos a driblar os mendigos espalhados pelas vias públicas, a desviar dos pedintes, a não se sensibilizar com aqueles que moram embaixo de pontes e viadutos. Só pedimos às autoridades que nos protejam e se possível limpem esse lixo humano que se acumula nas calçadas.

Por que será que nos tornamos tão insensíveis? Por que nos enganamos com respostas como "não tem jeito", "isso é um problema do governo", "é gente que não quer trabalhar" e nunca nos interrogamos sobre as causas de todo esse desequilíbrio? Quase todos poderíamos fazer mais, muito mais - e não fazemos. Estamos sempre muito ocupados em ganhar mais, sempre mais.

Seria muito mais sensato e barato eliminar as causas da pobreza e da violência do que se proteger com grades, cães, câmeras, armas e todo um aparato cada vez mais caro e sofisticado. E a vida seria mais feliz, para todos. Por que não fazemos? Eis uma questão complexa. Tem a ver com a política, com a economia, com a ética, com o tipo de pessoas que nos tornamos. Insensíveis. Algumas mais, outras menos.

Hoje, quando olhamos para o passado de escravidão de negros e índios, perguntamos: como isso foi possível? Afinal, aqui não viveram monstros, mas pessoas normais - até padres tiveram escravos e isso tudo parecia tão normal. Quando olhamos para o horror nazista, indagamos: como isso foi possível? Muitos dos que ajudaram a fazer funcionar a máquina de extermínio de 6 milhões de judeus eram pessoas que chegavam em casa, beijavam suas esposas, brincavam com os filhos. Liam livros, escutavam música clássica. Eram cidadãos de uma nação com elevado índice de civilização, de educação, de cultura.

Quando aqueles que nos sucederem, daqui a décadas ou séculos, olharem sobressaltados as estatísticas de tanta desigualdade, que produziu tantas mortes, tanta miséria e injustiça, perguntarão: "como isso foi possível?" Nós não estaremos mais aqui para responder. E nem precisaríamos, somos mesmo culpados.

* Jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas/SC. Assessor de imprensa do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal/SC e da Cooperativa Central de Crédito de SC.

8 de março de 2010

Estados Unidos ainda responsável pela maioria das emissões de CO2

Europeus importam quase duas vezes mais CO2 per capita que os norte-americanos, mas os Estados Unidos ainda são considerados os maioes emissores no mundo. 


De acordo com o Carnegie Institution for Science em Stanford, Califórnia, 23% das emissões globais de CO2 em 2004 - cerca de 6,2 gigatoneladas - ocorreram na produção de produtos comercializados internacionalmente. A maioria destes produtos foram exportados pela China e outros países relativamente pobres para os consumidores dos países ricos. Alguns países, como a Suíça, "terceirizam" mais de metade das suas emissões de CO2, porque importam mais do que exportam.

O europeu médio é responsável por adicionar mais de 4 toneladas de CO2 na atmosfera no fabricação de produtos importados de outros países. Para aos norte-americanos, o valor foi quase a metade - 2,5 toneladas -, graças às altas taxa de exportação dos Estados Unidos. 
O estudo do Carnegie Institution for Science é um dos mais completos no momento, de um  número crescente de estudos que consideram as emissões levando em conta o local onde as as mercadorias são consumidas. Inventários nacionais, tais como aquelas realizadas anualmente com a metodologia do IPCC consideram apenas as emissões produzidas no próprio território de cada país. 

Emissões e estilo de vida 

 
"Se queremos entender a nossa pegada de emissões, temos de compreender que os outros estão emitindo em nosso nome para fazer os bens e serviços que consumimos", diz o co-autor do estudo Ken Caldeira. "Os Estados Unidos e a Europa são responsáveis pela maior parte das emissões, porque os produtos produzidos na China, e portanto suas emissões, alimentam o nosso estilo de vida." 


O estudo baseia-se em dados econômicos do Global Trade Analysis Project com base na Universidade de Purdue, em West Lafayette, Indiana, que leva em conta a intensidade das emissões de CO2 na produção em diversos países e diferentes setores da economia. 


Outro estudo, que Glen Peters, do Centro Internacional da Noruega para Pesquisas Climáticas e Ambientais, em Oslo, a publicar em breve, usa dados do comércio internacional para analisar as emissões relacionadas ao consumo até 2008 e também como as distribuição das emissões globais de CO2 foi alterada desde 1990. 


Com base nos achados de Peters, os Estados Unidos ainda lidera o ranking das emissões de CO2 porque, embora as exportações do país compensem algumas das emissões realizadas em seu território, no conjunto os EUA ainda é o maior emissor. "A China ultrapassou os Estados Unidos em 2006 em termos de emissões territorial, mas em termos de consumo, você verá que os Estados Unidos ainda é o maior emissor", diz ele. 


Traduzido: Newscientist

6 de março de 2010

Excesso de projetos de lei retarda definição sobre sacolas plásticas

Oito meses atrás, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) lançou uma campanha pela redução do uso de sacolas plásticas em todo o país, a fim de incentivar novos comportamentos por parte dos consumidores, além de influenciar Estados, municípios e empresas. A cada dia uma nova empresa estampa sua própria sacola de pano para venda ou então produtos confeccionados em plástico mais resistente. Sem falar nos projetos de lei que asseguram o banimento das sacolas plásticas tradicionais dentro de poucos anos. Difícil é encontrar quem monitore essas propostas e avalie seus resultados para a economia e o meio ambiente. 

Mas o próprio governo admite que tentar banir o uso das sacolas plásticas é inviável num país que ainda não sabe lidar com seu próprio lixo. Segundo o MMA, menos de 10% dos municípios brasileiros dispõem de coleta seletiva (o que reduz a necessidade do consumo de sacolas plásticas) e apenas 3% têm sistemas de compostagem de resíduos orgânicos em operação."No momento em que Estados e municípios dizem que vão banir as sacolas plásticas, precisam dar ao cidadão um sistema de coleta que o faça não depender tanto delas para destinar o lixo em casa, senão as pessoas vão continuar precisando das sacolas dos supermercados", diz Fernanda Daltro. 

É exatamente isso que têm comprovado pesquisas de opinião encomendadas ao IBOPE Inteligência pelo setor de plásticos, em 2007 e 2009. "75% das pessoas consideram a sacolinha a melhor maneira de transportar seus produtos e 100% dos entrevistados responderam que usam sacolas plásticas dos mercados para o lixo em casa", disse Paulo da Colina, diretor do Instituto Nacional do Plástico (INP). A solução para o MMA é a implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que está pronta e se arrasta há 18 anos em tramitação no Congresso. 

Entre outros pontos, a PNRS institui a obrigatoriedade de coleta seletiva e a compostagem como gestão de resíduos sólidos no Brasil, tirando das prefeituras a escolha sobre o modo mais conveniente de destinação do lixo. Além disso, determina a implantação da logística reversa em que os fornecedores sejam responsáveis por seus produtos e embalagens, reincorporando-os ao ciclo de produção, começando de imediato com itens como pilhas, baterias, pneus, lâmpadas, eletroeletrônicos e agrotóxicos.

Dezenas de municípios já instituíram por lei a obrigatoriedade do banimento das sacolas plásticas tradicionais, admitindo, entretanto, sacolas dos tipos biodegradáveis e oxibiodegradáveis. "Sacola oxibiodegradável é balela. É uma aberração técnica e mostramos com base em dados científicos que isso pode trazer impactos ambientais ao longo do tempo", afirma da Colina. Ele explica que este tipo de plástico se transforma em pó por causa da oxidação, produzindo uma poluição invisível na água, no solo e no ar, não podendo ser reciclado e tampouco rastreado devidamente no ambiente.

Ao contrário disso, a Fundação Verde, do Paraná, defende as oxibiodegradáveis enquanto não se usam sacolas retomáveis, por agredirem menos o ambiente e poderem se degradar em 18 meses, enquanto outros tipos de plásticos demoram cerca de 500 anos para desaparecer."Quem faz criticas é quem defende o direito de continuar produzindo o plástico e não quer resolver o problema da poluição. Começamos a divulgar os benefícios das sacolas oxibiodegradáveis em 2005, com base em laudos científicos e diversos estudos", diz Ana Domingues, fundadora da instituição.

Segundo ela, pesquisas nacionais e internacionais comprovam que esse tipo de sacola não faz mal e consegue se degradar no ambiente em qualquer situação, não apenas em condições específicas, o que é a base da maioria das críticas que recebe. "Nós temos que confiar na tecnologia, sair da Idade Média e ter responsabilidade", completa ela. Segundo a Fundação Verde, 20% de toda sujeira gerada no país é plástico e metade disso vem das sacolas. Ainda de acordo com a fundação, somente as redes Carrefour, Walmart e Pão de Açúcar produzem 450 milhões de sacolas plásticas por mês. 

A Associação Paranaense de Supermercados (Apras) afirma que entre 50% e 70% de todas as sacolas comercializadas no P araná são hoje oxibiodegradáveis, graças a um termo de cooperação firmado entre os cerca de mil associados com a secretaria estadual de meio ambiente, em 2005, recomendando o uso desse tipo de sacola. Empresas como C&A e rede Atacadão também aderiram a esta ideia.

O sindicato das indústrias de plástico tem entrado com ações de inconstitucionalidade contra as leis que defendem as sacolas oxibiodegradáveis e biodegradáveis. Só no Estado de São Paulo, 80% das leis que saíram sobre o tema tiveram por liminar a sua aplicação suspensa, de acordo com Colina do INP. Segundo um levantamento entregue ao MMA em 2009, há pelo menos 41 projetos de lei em tramitação no Congresso para regular o uso de sacolas reutilizáveis, biodegradáveis e oxibiodegradáveis no mercado. E outras 26 leis em vigor sobre este assunto no país.

Fonte: Matéria publicada no jornal Valor Econômico, no dia 22 de fevereiro de 2010.

4 de março de 2010

O menino que domou o vento

Com dois livros de física elementar, um monte de lixo e a energia eólica, jovem abastece lâmpadas e celulares em sua vila no interior da África

FORÇA AÉREA: William Kamkwamba mostra a instalação que carrega celulares e acende luzes em Malauí, na África Escondido entre Zâmbia,Tanzânia e Moçambique, o Malauí é um país ruralcom15 milhões de habitantes. A três horas de carro da capital Lilongwe, a vila de Wimbe vê um garoto de 14 anos juntando entulho e madeira perto de casa. Até aí, novidade nenhuma para os moradores. A aparente brincadeira fica séria quando, dois meses depois, o menino ergue uma torre de cinco metros de altura. Roda de bicicleta, peças de trator e canos de plástico se conectam no alto da estrutura e, de repente, o vento gira as pás. Ele conecta um fio, e uma lâmpada é acesa.

O menino acaba de criar eletricidade. O menino e a importância de suas descobertas cresceram. William Kamkwamba, agora com 22 anos, já foi convidado para talk shows, deu palestras no Fórum Econômico Mundial, tem site oficial, uma autobiografia - The Boy Who Harnessed the Wind (O Menino que Domou o Vento, ainda inédito no Brasil) - e um documentário a caminho. O pontapé de tamanho sucesso se deve a uma junção de miséria, dedicação, senso de oportunidade e uma oferta generosa de lixo.

Em termos de geração e consumo de energia elétrica, o Malauí é o 138º país do mundo Uma seca terrível no ano 2000 deixou grande parte da população do Malauí em situação desesperadora. Com as colheitas reduzidas drasticamente, as pessoas começaram a passar fome. "Meus familiares e vizinhos foram forçados a cavar o chão pra achar raízes, cascas de banana ou qualquer outra coisa pra forrar o estômago", diz Kamkwamba. A miséria o impediu de continuar na escola, que exigia a taxa anual de US$ 80. Se seguisse a lógica que vitima muitos rapazes na mesma situação, o destino dele estava definido: "Se você não está na escola, vai virar um fazendeiro. E um fazendeiro não controla a própria vida; ele depende do sol e da chuva, do preço da semente e do fertilizante" , diz Kamkwamba.

Para escapar dessa sentença, começou a frequentar uma biblioteca comunitária a 2 km de sua casa. No meio de três estantes com livros doados pelo Reino Unido, EUA, Zâmbia e Zimbábue, Kamkwamba encontrou obras de ciências. Em particular, duas de física. A primeira explicava como funcionam motores e geradores. "Eu não entendia inglês muito bem, então associava palavras e imagens e aprendi física básica." O outro livro se chamava Usando Energia, tinha moinhos na capa e afirmava que eles podiam bombear água e gerar eletricidade. "Bombear um poço significava irrigar, e meu pai podia ter duas colheitas por ano. Nunca mais passaríamos fome! Então decidi construir um daqueles moinhos." Você está fumando muita maconha. Tá ficando maluco."

Era isso que Kamkwamba ouvia enquanto carregava sucata e canos para seu projeto. "Não consegui encontrar todas as peças para uma bomba d'água, então passei a produzir um moinho que gerasse eletricidade. " Seu primo Geoffrey e seu amigo Gilbert o ajudaram, e após dois meses as pás giravam. O gerador era um dínamo de bicicleta que produzia 12 volts, suficientes para acender uma lâmpada. As pessoas próximas a ele só acreditaram em sua conquista quando ele ligou um rádio, que na hora tocou reggae nacional. "Fiquei muito feliz. Finalmente as pessoas reconheceram que eu não estava louco." "Conseguimos energia para quatro lâmpadas, e as pessoas começaram a vir carregar seus celulares", diz. No Malauí, a companhia telefônica se recusou a fornecer infraestrutura para as vilas, e as empresas de celulares chegaram com torres de transmissão e baratearam os aparelhos. Por isso, hoje há mais de um milhão de aparelhos celulares no país, uma média de oito para cada cem habitantes. "Bombear um poço significava irrigar. meu pai podia ter duas colheitas por ano. Nunca mais passaríamos fome! Então decidi construir um daqueles moinhos." A história chegou aos ouvidos do diretor da ONG que mantinha a biblioteca. Ele trouxe a imprensa, e o menino foi destaque no jornal local. E daí alcançou o diretor do programa TEDGlobal, uma organização que divulga ideias criativas e inovadoras que convidou Kamkwamba para uma conferência na Tanzânia. O jovem aumentou o primeiro moinho para 12 metros de altura e construiu outro que bombeia água para irrigação. "Agora posso ler à noite, e minha família pode irrigar a plantação", diz.

Depois de cinco anos, com ajuda daqueles que descobriram sua história, Kamkwamba voltou à escola. Passou por duas instituições no Malauí, estudou durante as férias no Reino Unido e agora cursa o segundo ano da African Leadership Academy, instituição em Johannesburgo que reúne estudantes de 42 países com o intuito de formar a próxima leva de líderes da África. Apesar de não ter mudado em nada a sua humildade, o sucesso e as oportunidades de estudo tornaram mais ambiciosos os planos de Kamkuamba: "Quero voltar ao Malauí e botar energia barata e renovável nas vilas. E implementar bombas d'água em todas as cidades. Em vez de esperar o governo trazer a eletricidade, vamos construir moinhos de vento e fazê-la nós mesmos".

Escrito por William Kamkwamba em conjunto com o jornalista Bryan Mealer, The Boy Who Harnessed the Wind foi lançado em 29 de setembro nos EUA e ficou entre os dez mais da livraria virtual Amazon Confira a entrevista com William Kamkwamba:http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/1,EDG8725008489,00.htmL